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As Habilidades Humanas São Os Talentos Garimpados do Mercado

Fernanda Aoki
Fernanda Aoki
Artigos
19 Dez 2024
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As Habilidades Humanas São Os Talentos Garimpados do Mercado

Muito se tem falado sobre a importância da tecnologia. Ela entrou em nossas casas, em nossos trabalhos, e, sem que percebêssemos, foi mudando nosso modo de interagir, de nos expressar, de trabalhar, de pensar, de ser. Hoje, falamos através de emojis, expressamos nossas raivas deletando alguém das redes sociais, nos sentimos valorizados pelos números de likes em nossos posts, medimos nossa eficiência pelo esvaziamento da caixa de e-mails e nos sentimos importantes pelo número de seguidores que acompanham nossas postagens.

Sem perceber, tornamo-nos mais “tecno-lógicos”. Isso não se resume a acessar notícias em tempo real, receber mensagens no relógio ou pagar contas pelo celular. Por trás dessas vantagens e facilidades, há uma transformação do nosso jeito de ser. A palavra "tecnologia", em sua etimologia, remete ao estudo do fazer.

Quando falamos em "era da tecnologia", não se trata apenas do uso do digital, mas de uma geração centralizada no fazer, na tarefa. Tornamo-nos tão "fazedores" que nossa reclamação principal é a falta de tempo. Lotamos nossas agendas e, no "tempo livre", continuamos nos ocupando com checklists que buscamos validar nas redes sociais.

Se o senso comum dizia "um olho no gato e outro no rato", hoje temos um olho na tarefa e outro no "self", que pouco tem a ver com "si mesmo" e muito mais com o retrato editado que exibimos de quem somos. Envelopamos nossa vida para caber em uma foto, um e-mail ou uma dancinha – formatos pré-estabelecidos pela tecnologia atual.

A palavra de ordem é "sair da caixa", mas o que é validado é encaixar-se em uma caixinha com poucos caracteres, delimitando o que cabe de nós.

O Impacto Disso?

Tudo o que fazemos, mesmo sem notar, gera uma organização mental específica, privilegiando algumas competências e minimizando outras. Assim como ao exercitar um músculo, desenvolvemos aquele que mais utilizamos e atrofiamos o que quase não usamos.

O descompasso entre tecnologia e humanologia é preocupante. Quanto mais tecnológicos nos tornamos, menos utilizamos nossas habilidades humanas. Isso significa que estamos nos desumanizando? O homem das cavernas era mais humano que nós?

Não se trata de comparar evolução ou concluir que a tecnologia desumaniza. A relação não é causal, mas de distração das habilidades humanas. Não estamos nos desenvolvendo humanamente na mesma velocidade em que criamos soluções técnicas para "fazer coisas".

A mentalidade da tecné, do fazer, prioriza funcionalidades digitais, mas negligencia formas de entender como somos, como podemos ser felizes, cooperativos, empáticos, autônomos, livres e realizados. Assim, nossas habilidades humanas ficam atrofiadas.

Hoje, não lutamos com espadas por território, mas registramos altos índices de brigas com mortes no trânsito. Não demoramos meses para nos comunicar por cartas, mas passamos a vida sem saber quem são nossos vizinhos ou colegas de trabalho. Podemos seguir pessoas e saber tudo sobre elas – do fim de semana à comida favorita – mas ainda não sabemos como tocar os outros e continuamos nos sentindo sozinhos.

Como parodia a música popular brasileira: "e apesar de tudo que vivemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos ancestrais".

O Mercado Notou

Para alcançar valores centrais como felicidade, realização e pertencimento, é preciso priorizar habilidades humanas. São elas que geram produtividade, criatividade, vendas e engajamento.

Pessoas imaginativas, que diferenciam processos nas organizações, são as que lidam bem com problemas e encontram soluções criativas. Líderes autoconfiantes, empáticos e assertivos são aqueles que agregam a equipe e apresentam os melhores resultados.

Essas habilidades, no entanto, não são ensinadas na escola, nem exigidas em nossa participação nas redes sociais.

Um famoso estudo de Harvard, que originou a disciplina concorrida e o livro O jeito Harvard de ser feliz, mostrou que não é o sucesso que traz felicidade, mas o contrário: a felicidade é preditora do sucesso.

Isso foi um ponto de virada para organizações que passaram a valorizar competências humanas de performance – cada vez mais raras no mercado. Afinal, dedicamos pouco tempo a desenvolvê-las.

Passamos 15 a 20 anos estudando matemática e português, mas não investimos em nos conhecer, entender nossas reações ou sermos assertivos nos diálogos.

Hoje, habilidades técnicas são essenciais na contratação, mas são as habilidades humanas que determinam promoções e, muitas vezes, evitam demissões. Estamos em um treinamento equivocado para essas competências, como tentar vencer a São Silvestre assistindo ao maior número de séries na Netflix.

Como Desenvolver Nossas Habilidades Humanas?

  • Atenção: Estamos tão habituados a olhar para baixo, para nossas telas, que reduzimos em 10% nossa visão periférica. Percebemos menos o mundo ao redor e perdemos a capacidade de construir nossas próprias percepções. Dica? Olhe para frente. Se os olhos fossem feitos para olhar só para baixo, estariam no queixo.
  • Relacione-se com pessoas: Vá além dos cargos e funcionalidades. Quem é a pessoa por trás do atendente, do advogado, do cozinheiro ou do motorista? Entender histórias, modos de pensar e sentir ensina empatia e engajamento.
  • Tenha mentores: Identifique cinco pessoas que admira. Descubra por que as admira, entenda seus valores e busque aprender com elas. Nossos melhores professores são outros seres humanos.

Transforme a vida em aprendizado: Aprender vai além de armazenar informações. Significa transformar vivências em capacidades. Desafie-se, exponha-se e reflita sobre os aprendizados do dia. Uma ideia? Faça um caderno de aprendizados, relatando situações vividas e as lições extraídas delas.

Assim como o mercado, precisamos garimpar em nós o que temos de melhor. Como dizia Sócrates: "só poderemos cuidar de nossos afazeres se cuidarmos de nós mesmos". Para ele, cuidar é empreender o trabalho de si sobre si, em busca de melhorar continuamente quem somos.

 

Autoria de Fernanda Aoki para Revista Carreira

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